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Limites ambientais: uma visão da economia ecológica

Última atualização em 21/02/2024 às 11:31 por cisbra
 
Vinícius Pagani de Melo
Assistente Ambiental CISBRA
Economista – Mestre em Economia

 Conceitualmente, a Economia é uma ciência social que estuda como as sociedades usam os recursos escassos entre os mais diversos fins. A Ecologia também é uma ciência, do ramo da Biologia, que estuda os seres vivos e suas interações com meio ambiente. Relativamente nova (pois começa a ganhar força no final dos anos 1980), a Economia Ecológica é um campo de estudo transdisciplinar que reconhece a interdependência da economia e dos ecossistemas naturais ao longo do espaço e do tempo. A junção desses conhecimentos surge quando um grupo de economistas percebe que a economia é subsistema da natureza, e não o contrário.

Ao recorrer à história compreendemos que a Revolução Industrial provocou impacto profundo na economia, na sociedade e no ecossistema global. Seu sucesso reduziu drasticamente a falta de bens de consumo para a maior parte da população do planeta. Contudo, o crescimento econômico que a acompanhou ameaça a abundância de bens e serviços que são produzidos pela natureza e dos quais dependemos. Estes, por fim, tornaram-se os novos recursos escassos e, por isso, a necessidade de se redesenhar o sistema econômico para enfrentar esta realidade.

Infelizmente, a nossa capacidade de aumentar o consumo enquanto destruíamos a base dos nossos recursos levou as pessoas a acreditarem que as sociedades e suas economias transcenderam a natureza. Assim, no sistema corrente, a grande ideia de riqueza aparentemente não têm nada a ver com recursos naturais, mas sim com transações financeiras feitas por computadores que fisicamente pouco ou nada fazem. Apesar da importância da informação e do conhecimento, a riqueza necessitará sempre, em última instância, de recursos físicos. Uma receita não substitui uma refeição, apesar de uma boa receita poder melhorar a refeição.

Esses primeiros parágrafos são reproduções de um capítulo do livro “Economia Ecológica” do pesquisador americano Herman Daly, ganhador de vários prêmios por seus estudos sobre desenvolvimento sustentável. Daly utiliza-se da ilustração de “mundo vazio” e “mundo cheio” para representar em que o mundo apresentava baixa densidade populacional e com baixo padrão de consumo com a época atual de superpopulação e padrões de consumo incompatíveis com a integridade do meio natural. No mundo cheio, é muito elevado o csto de oportunidade (custo de algo em termos de uma oportunidade renunciada) no uso dos recursos naturais. Como vemos na figura abaixo, a não incorporação do capital natural nas análises econômicas poderia até ser tolerável em um “mundo vazio”, porém não tem sentido em um “mundo cheio”.

A figura ilustra a economia (real e financeira) como subsistema de um sistema mais amplo, que compõem o capital natural que conta com o sol como sua principal fonte energética. Nele ocorrem as trocas de matéria e energia e são fornecidos os serviços ambientais essenciais para todas as formas de vida do planeta. O bem-estar humano é resultante desses serviços ambientais gerados pelo capital natural e dos bens e serviços reais produzidos na economia real.

Para a produção de bens e serviços a economia real utiliza matéria e energia subtraídas do capital natural e que se encontram em estado de baixa entropia (grau de irreversibilidade de um sistema). Esse processo inevitavelmente gera resíduos. Uma pequena parte desses resíduos é reciclada e reutilizada no processo produtivo, mas uma grande quantidade é descartada e despejada de volta para a natureza.

Deste ciclo, uma pequena parte desse descarte será absolvida pela natureza, mas uma grande parte se acumula em forma de poluição e aumento dos estoques de energia não utilizável, o que, dependendo da magnitude comprometerá a geração dos serviços ecossistêmicos. No mundo vazio, em que a escala de produção de bens e serviços era pequena, o elemento escasso ou fator limitante da produção era o capital manufaturado, ao passo que os recursos naturais eram abundantes. No mundo cheio, superpovoado em que o tamanho da economia passa a suforcar a capacidade do capital natural gerar os serviços ambientais necessários para o bem-estar humano, o custo de oportunidade no uso dos recursos naturais e ambientais é alto.

Durante muito tempo economia e ecologia caminharam por lados opostos no que se refere á questão ambiental. A primeira tomando a natureza como um meio gerador de recursos á produção, a segunda cumprindo seu papel de tentar conservar os recursos naturais. Muito embora o sistema econômico atual (alto consumo) exista há muito pouco tempo quando comprado com sistemas anteriores, conseguiu provocar mudanças ambientais muito maiores. Estas mudanças redefiniram a noção de recursos escassos e exigem mudanças dramáticas na teoria economia e, consequentemente, nas políticas ambientais.

A mudança é inevitável. A única questão é saber se ocorrerá como resposta caótica a perturbações naturais ou como uma cuidadosa e planejada transição para um sistema que opere dentro dos limites físicos impostos por um planeta finito. A resposta depende muito do quão rápido agirmos, e a questão permanente é: Quanto tempo ainda nos resta?

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